sexta-feira, 13 de abril de 2012

Se vocês veem na moral a verdadeira bondade, tolos são os que pensam que um dia serei boa então. Jamais o serei. Minha pervensão está compreendida justamente na incapacidade que tenho de beber da moralidade. Entenda a sutileza do meu ser e encontrará a bondade que inventei pra mim.
                                                                                                          

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Bendita seja na voz de Mart'Nália

Bendita
Zélia Duncan


Benditas coisas que eu não sei
Os lugares onde não fui
Os gostos que não provei
Meus verdes ainda não maduros
Os espaços que ainda procuro
Os amores que eu nunca encontrei
Benditas coisas que não sejam benditas

A vida é curta
Mas enquanto dura
Posso durante um minuto ou mais
Te beijar pra sempre o amor não mente, não mente jamais
E desconhece do relógio o velho futuro
O tempo escorre num piscar de olhos
E dura muito além dos nossos sonhos mais puros
Bom é não saber o quanto a vida dura
Ou se estarei aqui na primavera futura
Posso brincar de eternidade agora
Sem culpa nenhuma
Passei a noite como um gato vadio. Estou suja de boemia, não que eu me importe de fato porque no fundo não me importo com nada. Me sinta tão única, tão vazia e independente que não preciso de nada para além de absorver tudo. O que me leva a crer que posso ser definida como um evento cosmológico chamado buraco negro. Tenho a mesma falta de princípio, o interminável meio e o desconhecido fim.

Se eu fugir e sair talvez eu chegue aí.

Enquanto antes eu saí em busca do vazio, agora saio para me achar. Não me achar no sentido de me conhecer, mas talvez no sentido de me (re) conhecer. O que estou tentando dizer é que hoje quero me inserir.

Sei que é bom ser de algum lugar, estar em algum lugar ou ser de alguém. Posso dizer isso porque vim de algum lugar, já estive em algum lugar, assim como também já fui de alguém. Essa é a justificativa do meu estado cheio de certezas. Contudo, se me inundo de tais convicções porque não me sinto contemplada com o prazer da satisfação? Bom, de certo tenho me inundado de certezas, entretanto, dia após dia só me ponho a aterrar de questões. Se você é assim como eu, saiba que a firmaza de um casa se encontra tanto em suas estruturas quanto no solo em que se ergue.

Com a cabeça vazia  e não esvaziada, o que é pior, percebo a presença do sol quente queimando meu corpo. Não sinto meu peito pesar. Minha consciência falha, minha morada flutua. E se essa ausência for o que me torna real? Ou seja, se essa ausência (que será definida depois) for parte da minha essência não poderia eu mudá-la. Admito ter conhecimento da corrente de pensamento que diverge dessa afirmativa. Mas  ignorando-a afim de adotar minha suposição como verdade, eu não teria como escapar desse vazio que tanto falo. Seria o fim da minha busca para sempre. Seria o fim da minha maior motivação para escrever. O fim.

Trágica? Eu diria, poeticamente dramática.

Eu não possuo um objetivo conclusivo para o que estou escrevendo. É melhor não esperar um fim, nem eu sei se uma hora ele virá. Enfim, continuando. Eu não faço a menor idéia do que digo e, mesmo que um dia venha a saber, nada teria o que fazer com este conhecimento. Dito o dito, mesmo assim, alguns ainda esperam que eu compreenda a significância dos meus atos. Foda-se! Eu não sei o que estou fazendo. Tudo o que espero é não morrer agora sem ter feito tudo valer a pena. Cômico. Uma boca que sempre abre para dizer que nada tem agora está com medo de perder tudo? Quer saber?Pra porra com minha extravagâncias emocionais! Pra porra com minha racionalidade irracional! Pra porra se eu me contradisser, se eu disser e (des)disser. Foda-se. Eu não sei mesmo o que estou dizendo.

Foda-se tudo realmente, porém, entendo que preciso tomar uma direção. Acabei por me decidir seguir minha natureza livre. Normalmente todos se julgam livres mesmo antes de vir ao mundo, entretanto, eu não poderia dizer que era livre antes de me decidir ser livre. Todos os dias, não importa como fosse, não importa quem fosse, eu tinha que ter para mim. Eu tinha que amá-la. Ser livre dentro das minha palavras significa ser desejante independente do obejeto, ou seja, ser desejante de um qualquer em função de mim mesma.

No fim, seja livre ou não, tudo o que quero é não me sentir mais sozinha. Porque não importa o que for, familiar ou desconhecido, a incapacidade de me apegar é igualmente sentida. Eis aqui por fim a delimitação do que em mim é ausente.

terça-feira, 3 de abril de 2012

A nova velha roupa do rei

     Fiz hoje o que todas as pessoas livres deveriam fazer, caminhar. Não apenas caminhar, mas sair em busca. Hoje saí em busca de algo. Acho que poderia ser qualquer coisa, podia ser até de mim mesma. Foi estranho sair hoje porque não pude me vestir. Eu não era nada. Não era feia, não era bonita, não era esquisita e nem amigavelmente interessante. Estava nua.

     Com o corpo que não pude vestir, obeservei cada canto de rua. Mesmo andando sem direção eu sabia onde estava indo e por qual razão. Eu sabia que no fim acabaria por riscar alguma coisa e desenhar coisa nenhuma. Eu sabia que apenas tentaria.

     Tentei encontrar qualquer rosto, corpo, cheiro, ou som que fosse familiar, contudo, nada. Só consegui sentir raiva por ter que dividir com desconhecidos o que tinha se transformado no meu espaço, um banco cujo lado esquerdo ocupava. Praça pública sempre me pareceu tão tolerável antes. Já não tenho tanta certeza.

     As horas se foram rapidamente. O Sol morreu tão forte e lento que mal pude sentir e de tudo, só me sobrou como companhia as percepções. Percepções da penunbra pré-noite, o vento frio e a invasão continuada quase cruel que teimavam em insindir sobre o meu espaço. Nunca desejei tanto poder ficar sozinha. Acabei me perdendo nesse desejo de tal forma que já não lembro das motivações pelas quais me pus a escrever. Agora tudo está solto e aleatório como quando eu saí de casa. 

     O orelhão toca, pessoas riem alto, músicas ecoam e continuam invadindo meu espaço. Eu que comecei humildemente uma busca, acabei com uma perda. Perdi meu espaço. Então, é hora de ir. Talvez amanhã eu saia novamente e volte para conquistar meu espaço. Talvez eu busque outro(s) espaço(s), mas amanhã. Porque de todas as conquistas que eu poderia ter tido hoje só o completo vazio configura-se como tal.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

E depois da luz vem o direito de enxergar...

''Se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor nos salve da vida.''

 Pablo Neruda

em:

FILOSOFIA DE APARTAMENTO

-E do amor o que nos salva?


-Nada.. Eu acho..

-Extremamente injusto. Não me lembro te ter escolhido entre a pílula vermelha e a azul. Enfim, seja como for, nada talvez nos salve do amor, porém, o realismo não nos afasta dele com uma brutalidade de natureza covarde? Creio que sim, mas só nos afasta.

- "a imunização racional" ..

-Não sou tão doce quanto você. Prefiro chamar de ''expurgação racional''... mas a ideia é essa

-Expurgar: Limpar, corrigir, sanear.
( é isso! )
    

Se é ou não nunca saberei, mas poderia ser. 

sábado, 31 de março de 2012

Dona Central, mãe de todos os filhos.

       A central. Hoje precisei estar lá, não por vontade, mas por necessidade. Olhei ao redor e parei para pensar em quantas vezes estive por lá. Muitas, foi a conclusão. Não sei ao certo porque depois de tanto tempo aquele lugar me chamou a atenção.

      Tive a certeza de estar pisando no chão mais triste do Rio de Janeiro (claro que estou considerando somente os lugares em que já estive). Ninguém fica realmente lá, as pessoas passam, correm. Há aquelas que trabalham, aquelas que visitam e ainda as que se hospedam. Quero que fique claro ao que estou me referindo, refiro-me ao terminal rodoviário (cujo nome não sei ao certo, portanto, chamarei de Rodoviária Central do Brasil) e a todos que por ali passam.

      Sujeira e obscuridade são o que vejo. Homens riem alto, felicidade denunciada pelo cheiro de álcool. Mulheres que não se reconhecem mais, elas esperam apenas serem consumidas.  Tudo parece tão cru que cheira ao natural. Estranho, palpável e amargo.

      Mas de tudo, o que prendeu minha atenção emotiva, caso ela exista, foi aquele senhor.  Sabe aquele homem que é visto naquela área todos os dias ao longo dos últimos anos? Aquele mesmo. Este velho conhecido de todos já não tem pressa de chegar no meio de tanta correria do dia-a-dia, não tem quem o espere para jantar.  Quando acho que ele vai pegar o ônibus, o vejo revirando o lixo. Ele estava em busca do que o cão de olhos tristes não quis mais.

     Começo a fingir que não vejo. Que não sinto o cheiro de sofrimento, frustração, arrependimento e medo nos corpos opacos que ocupavam aquele espaço. Sou leiga, uma turista, tal como o rapaz ao meu lado que tirava fotos de tudo por achar a pobreza encantadora. Eu pude ver que desconhecia o coração da minha cidade, porque sempre ouvi dizer que era Copacabana e esta eu bem conhecia como toda suburbana abobalhada que se preze. Como pude ser incapaz de enxergar em todos esses anos minha cidade tal como ela é? Só hoje via a alma do Rio nua.
    
     No fim do dia, enquanto me ponho a escrever essas palavras, o balaço do visto e descoberto surge. Vou admitir que por mais pobre e triste que seja aquele lugar, não consigo odiá-lo. Ele acolhe a todos e a tudo sem reclamações. Sinto em suas estruturas uma exaustão pelo desgaste, mas mesmo assim permanece erguida. Dito isto, sugiro uma reforma como forma de agradecimento. Eu sei que a tristeza ainda estará lá, contudo os olhos não mais arderão.